terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Bahia do pão e circo


A imagem construída de uma Bahia idiossincraticamente festiva e alegre, vem se perpetuando nos arautos da sociedade com uma exibição exagerada de uma cultura transmitida como especialmente singular, fabricada de maneira vendável. Em contrapartida, a identidade baiana é muito maior que a retratada no show business.

A afirmação identitária é estrategicamente reproduzida pela indústria cultural, que retroalimentada pelos fluxos monetários advindos do turismo e do entretenimento, encontra fortes bases na “música baiana”, sintetizada com o termo axé music, vertente hoje flagrantemente voltada ao comércio musical e que não abrange a totalidade da música local, ilustrada pelos “Caymmis”, “Rauls” e “Caetanos”, apresentadores de canções elaboradas que passaram a não agradar os ditames de uma “máquina” cultural.

Nessa linha, indispensável apontar a superior festa “popular”, carnaval (e os festejos sacro-profanos que o antecedem), pois essas idealizavam em seus discursos a igualdade, mas se transformaram em negócio. Fato que pode ser claramente notado nas letras e melodias propositadamente fáceis entoadas do alto do trio elétrico, fazendo da qualidade algo preterível, tal qual crescimento no número de blocos e dos ostensivos camarotes, promovendo, por conseguinte, a segregação entre a massa popular e a massa elitizada, para fortalecimento do “Produto Bahia”, com empenho do Estado através das propagandas para turistas brasileiros e estrangeiros, veiculando estereótipos, folclorizando a cultura popular pela massiva.

Em outro âmbito, avalie-se a promoção do São João com nova roupagem para atrair mais uma vez a atenção para a Bahia (assim como em todo o Nordeste). A festa tornou-se luxuosa, as atrações artísticas reconfiguram o contexto, as fogueiras são eliminadas ou estilizadas e as vendas continuam garantidas.

Há um condicionamento permeando os produtos culturais no “Estado da Alegria”, onde o povo socialmente suprimido pelo cotidiano, não percebe o engendramento da indústria cultural em suas vidas, com o discurso de leveza, facilidade e fantasia. A reação contrária se forma ainda de maneira tímida, enquanto a perpétua indústria cultural caracteriza a Bahia como palco dos festivais de todas as estações, Bahia carnavalizada, do pão e circo.

Vânia Santtana

segunda-feira, 9 de maio de 2011

"Desumor"


É... tudo se aguenta: histeria coletiva no ônibus lotado, computador travado, prazo apertado, declaração atrasada e o leão com a boca bem aberta me sacando... e sacaneando.
Passada a hora do rush, momento de buscar amenidades.
Tentadoramente o controle remoto salta aos olhos como tábua de salvação mental, no entanto, ao invés de alívio, novo desespero: a inteligência é liquidificada pelos micropontos coloridos que impõem as imagens das "novas" atrações de humor. Não era para ser suave e engraçado?
O que se vê é sexo, preconceito e falta de nexo, partindo da TV, permeando a sociedade e voltando para a TV como realidade “parodiada”, num nefasto ciclo de horror.
Para tornar algo "risível" é necessário ser desprovido de consciência social?
O humor não tem obrigação de levantar bandeiras, entretanto, como legítimo formador de opinião, não deve ser irresponsável a ponto de desrespeitar a diversidade sócio-cultural.
Seria mesmo a formatação escorada nos estereótipos o único combustível do humor?
Nos padrões atuais, reflete-se um ancoramento de discurso no qual o preconceito é velado no cômico e a agressão recebe abrigo na "inocência" das atrações humorísticas.
Para piorar a situação e consolidar a falta de graça, surge o riso eletrônico para pontuar o momento de gargalhar e, pelo visto, deve estar cumprindo o seu papel, reforçando a idéia da não tão equivocada idéia da teoria hipodérmica.
É... tudo se aguenta: ônibus, computador, imposto de renda... só não dá pra tolerar essa impudente tentativa de controle mental.

Vânia Santtana e Márcio Antônio Santana

Estoque de Valores


Antigamente tinha a sensação de que QUASE TUDO no mundo era vendável. Por vezes (muitas) chego a inclinar à crença de que TUDO é negociável, mas receio uma tendência a ser radical.
O dinheiro há tempos inventado como mera comunicação material, hoje circunda o(s) universo(s) como senhor das almas, espectro entre "humanos".

Quanto ganha? Quanto compra? Quanto tem? Essas se tornaram perguntas presentes em questionários aplicados, ora diretamente, ora sob um manto de disfarce, no simples ato de "conhecer" alguém.
Bondade, caráter, honestidade, figuram entre interesses secundários.
Diálogos primeiros, segundos e terceiros não mais se concentram em arte, ações humanitárias, espiritualidade, pois as antes "in-musicadas" cifras monetárias são hoje  tocadas para que em nossas mentes sejam fixadas e mantidas como centro de abordagem.
Será que fomos resumidos a estoque de valores? Será que valemos à pena e apenas pelo que o nosso cartão de crédito sustenta?
Um dia desses, para poupar tempo, ao sentarmos numa mesa com alguém que pouco ou nada nos conheça, teremos que apresentar aviso de crédito antecipado para que o estabelecimento do laço seja ou não autorizado.
Digno de desespero!

Vânia Santtana

terça-feira, 26 de abril de 2011

Provocar Constrangimento é Hobby?


Acho ótimo que as pessoas se preocupem com tendências de moda, desde que não esqueçam as tendências para perguntas pertinentes, afinal, não existe coisa mais démodé do que a inconveniência.

É injustificável, na atual configuração social, alguém ainda arriscar perguntas como "é seu filho?", diante de um casal que aparente diferença etária, "tá grávida?", perante uma barriga saliente, dentre outras tão gentilmente formuladas para sobrevir o mesmo efeito.
Mas, como esses despropósitos não estão tipificados no Código Penal e, ainda que estivessem, isoladamente não asseguraria a súbita extinção desses, o jeito é incitar o auto-conformismo e finalizar apenas respondendo: só pode ser hobby mesmo.

Vânia Santtana

Fórmula da Serenidade!


Enquanto esperava literalmente sentada para ser atendida em um setor “buRRocrático” de uma instituição que não me estimula citar, ensaiava a oração da serenidade para tentar neutralizar a angústia que me acometia, quando notei, ao passar os olhos pelas cadeiras que me avizinhavam, que uma nobre senhora sorria. Solfejando a “Flor e o espinho (...tire seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor...), passei a olhá-la sem disfarce na tentativa de encontrar o motivo que a anestesiava, até que identifiquei que algo envolvia as suas mãos. Junto a percepção, veio a questão: quem foi que disse que plástico-bolha tem como principal função proteger objetos em transportação?
Eu bem que poderia ter descoberto a fórmula da serenidade antes, mas aceitei de bom grado o sábio ditado: “antes tarde do que nunca”, meu irmão.


Vânia Santtana

Não é de hoje que o trânsito de Salvador está CAÓTICO e percorrer as ruas de Salvador em direção a QUALQUER lugar é tarefa de paciência, mas a constatação (talvez tardia) de que muito tempo da minha vida escorre cruel e disfarçadamente nos gargalos de cada esquina, é o que me angustia. Sentei e esperei. Continuo sentada, esperando e nada. As obras de mobilidade urbana vão mesmo sair do conforto dos papéis e tornar o deslocamento humano menos desgastante? Realmente não sei.

Vânia Santtana

domingo, 12 de julho de 2009

Incenso, Violão e Pensamento!


Acho que sempre chega o dia em que nos deparamos apenas com a nossa companhia.
O dia em que o silêncio paira e você se depara com uma nova realidade escoltada por um pensamento tolo: o que faço? Estou sozinha?
Ah, quando identifiquei ser aquela a minha vez, rapidinho esvaziei aqueles questionamentos embaraçados.
Como foi bom perceber quão linda é a minha íntima companhia.
Eu. Eu comigo mesma. Plena e absoluta.
Naquela tarde onde o sol se despedia, onde nada para fazer me restaria (se não aproveitar minha própria parceria) pude ouvir minha voz. Pude ouvir meu próprio suspiro. Pude me perceber. Como foi bom me sentir ali (sozinha).
Hoje sei dos meus anseios. Hoje sei até qual página da minha história o "outro" pode acessar sem que eu tenha que acionar aquele dispositivo desagradável de bloqueio. Realmente descobri o meu limite e aprendi a importância de respeitá-lo.
Amigos? Tenho amigos-irmãos-parceiros e quando me tornei mais livre, tornei-os também. É tão bom tê-los sem o pesadelo da co-dependência imposta em alguns formatos de relacionamentos. Somos únicos, mais fortes juntos, mas mesmo separados somos inteiros.
Agora descobri uma generosa paixão por escrever meus pensamentos. Aliás, prefiro dizer "rabiscar" meus pensamentos, pois assim me isento da responsabilidade de acerto.
Diante da descoberta, resolvi montar esse blog para me dar o direito de pensar alto e permitir que os "outros" possam adentrar nesses pensamentos. Aqui esboçarei algumas críticas, revelarei algumas singelas composições de minha autoria e, possivelmente, exporei algumas novidades "cabíveis". O que motivou a escolha do nome "Incenso, Violão e Pensamento"? Meus momentos recentes estão sendo embalados por esses três elementos.
Enfim, seja bem vindo a partilhar comigo o aroma do incenso, ouvir o som do violão que penetrará o inconsciente, além de deixar fluir livremente os pensamentos/questionamentos para que possamos fazer deste, um espaço único. Um espaço da gente!


Vânia Santtana